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EDITORIAL

Discurso de abertura do 32º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Alexandre Visconti BRICK

DOI: 10.1590/S0102-76382005000200002

Estimados colegas, bons amigos!

Vitória! Vitória!

Caro Shariff, a quem aprendi a admirar; Domingo Braile, amigo e orientador, Excelentíssimo Governador Paulo Hartung. Vocês conseguiram! Vitória! Bela capital capixaba, que nos recebe de braços abertos.
Com carinho, admiração e respeito, em nome desses três vencedores, cumprimento a todos os que vão compartilhar, com a diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, de momentos de congraçamento, aprendizagem e, sobretudo, de renovação.

No meu discurso de posse citei o poeta Carlos Drummond de Andrade, que escreveu que "no meio do caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho..."

Há, ainda, muitas pedras para serem removidas ou ultrapassadas no meio do nosso caminho. Elas sempre existirão!
O que fazemos nós, médicos, todos os dias, senão remover obstáculos, senão buscar alternativas aos obstáculos aparentemente intransponíveis, senão encontrar caminhos desobstruídos, possibilitando a continuidade da vida?
Para a continuidade da vida, como é bom ser grato a tudo e a todos, aprendendo com as pessoas que nos cercam, incentivam e criticam, ajudando-nos a enfrentar os desafios da vida.

Pensando no que escrever, lembrei de um mito antigo da cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento da águia:
"De tempos em tempos - reza o mito - a águia, como a fênix egípcia, se renova totalmente".
Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então, as penas se incendeiam e ela toda começa a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu e se lança qual flecha nas águas frias do lago. Através dessa experiência de fogo e água, a velha águia se rejuvenesce totalmente. Volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente, esse mito constitui o substrato do Salmo 103, que diz: "O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia".

Fogo e água são opostos. Mas, quando unidos, fazem-se poderosos símbolos de transformação. Ninguém, ao passar pelo fogo ou pela água, permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a água lava e o fogo purifica. A água nos faz pensar nas grandes enchentes que, com sua força, a tudo carregam, especialmente o que não tem consistência e solidez. São os infortúnios da vida. E o fogo nos faz imaginar as fornalhas que queimam e acrisolam a tudo o que não é essencial. São as notórias crises existenciais.

Ao fazermos esta travessia pela noite escura e medonha - como dizem os mestres espirituais - deixamos aflorar nosso eu profundo. Então, amadurecemos para aquilo que é autenticamente humano. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do mito antigo.

Rejuvenescer como a águia significa, também, desprender-se de coisas que um dia foram boas e de idéias que foram luminosas, mas que lentamente se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida.
Rejuvenescer como a águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso a que nós propomos em cada congresso?

Vitória!

Que ao final deste 32º Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular, que agora se inaugura, haja a oportunidade de perguntar o quanto existe em nós da galinha, que não quer outra coisa senão ciscar o chão; ou quanto ainda há em nós da águia, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se, valentemente, com os tropeços e as crises da vida.
Renovar-se constantemente é o verdadeiro espírito do cirurgião cardiovascular.

Bem-vindos a Vitória!

Alexandre Visconti Brick
Presidente da SBCCV
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