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EDITORIAL

Editorial

E. J ZERBINI

DOI: 10.1590/S0102-76381991000100001




DELMONT BITTENCOURT: 1921-1991

O primeiro ato oficial do "18º Congresso Nacional de Cirurgia Cardíaca", realizado no Rio de Janeiro, foi a homenagem póstuma prestada a Delmont Bittencourt. Todos nós, membros da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e da Sociedade Brasileira de Cardiologia, perdemos um grande amigo e a Cirurgia Cardíaca brasileira, um de seus pioneiros.

Delmont Bittencourt nasceu em Curitiba, a 25 de agosto de 1921. Sua educação primária realizou-se entre 1928 a 1931, na Escola Normal de Curitiba; fez sua educação secundária no Ginásio Paranaense, tendo sido aprovado por média em todos os anos. Em 1939, prestou exame de habilitação à Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná, sendo aprovado em primeiro lugar. Em 1942, transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1945.

Já durante seu curso médico, demonstrou grande interesse pela cirurgia, integrando-se ao Serviço do professor Alípio Corrêa Netto, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e nunca abandonou essa laboriosa equipe, durante sua longa e gloriosa evolução, até que deixou nossa companhia no dia 27 de janeiro de 1991. Como estudante, foi Acadêmico Interno da Santa Casa, plantonista do Pavilhão Central e Interno Residente do Pavilhão Fernandinho Simonsen.

Após sua formatura em 1945, aprimorou os conhecimentos adquiridos durante o curso médico em cirurgia geral com uma sólida e proveitosa Residência de três anos no Hospital das Clínicas de São Paulo, iniciando, a seguir, uma brilhante carreira como cirurgião, investigador, professor, orientador de jovens estudantes e médicos, conselheiro, político, tradutor e encarregado da versão de trabalhos científicos para várias línguas; enfim, não houve nenhum cargo ou nenhuma atividade no Serviço do professor Alípio e no meu próprio, após ter eu tido a honra de substituir nosso querido Chefe, nos quais o Dr. Bittencourt não tenha participado e exercido pesada influência nas importantes decisões. Essa inestimável contribuição foi intensa e contínua, durante longos anos, até seu desaparecimento. Seu proficiente trabalho enriqueceu-o em prestígio, títulos universitários e produção científica, que todos nós conhecemos.

Em 1958, como bolsista da Fundação Rockfeller, trabalhou com C. Walton Lillehei, em Minneapolis, na University of Minnesota Medicai School, e contribuiu, após sua volta dos Estados Unidos, para o desenvolvimento da circulação extracorpórea no nosso grupo. Estando sempre muito bem atualizado na literatura publicada sobre a cirurgia cardíaca e conhecendo pessoalmente os reverenciados precursores e grandes Serviços da especialidade no exterior, foi pioneiro na realização, em primeiro lugar no Brasil, de vários inéditos procedimentos cirúrgicos propostos pelos cirurgiões que fizeram a história da cirurgia cardíaca. Entre muitas outras incontáveis contribuições, participou dos primeiros transplantes cardíacos realizados na América Latina, em 1968.

Dedicou-se com extraordinária energia ao plano de elaboração e, posteriormente, à realização do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Visitou todas as Instituições congêneres em vários países, exercendo uma efetiva colaboração no planejamento de cada mínimo pormenor da construção, organização médica e administrativa, aquisição de equipamentos, e tudo o mais que o InCor necessitou para aparecer.

Delmont Bittencourt era um homem culto e perfecionista. Interessava-se, curiosamente, por minúcias da cultura geral. Falava várias línguas e conhecia muito da literatura de vários países. Possuía personalidade muito especial. Caracterizava-o uma extrema bondade, perfeita educação social, respeito ao próximo e profunda valorização da amizade, qualidades que consquistaram várias gerações de jovens cirurgiões cardiovasculares, muitos aqui presentes, que a ele devem a orientação, os ensinamentos e parte do treino técnico que permitiram sua projeção no cenário da cirurgia cardíaca brasileira.

Enquanto tivermos memória, lembrar-nos-emos de Delmont Bittencourt com muita saudade.

PROF. DR. E. J. ZERBINI
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