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CORRELAÇÃO CLÍNICO-CIRÚRGICA

Comunicação interatrial ostium secundum: pouca clínica e muita repercussão hemodinâmica

Ulisses Alexandre CrotiI; Domingo M BraileI; Adriana Érica YamamotoI; Ana Carolina Leiroz Ferreira Botelho Maisano KOZAKI

DOI: 10.1590/S0102-76382008000400023

DADOS CLÍNICOS

Criança com 9 anos e 6 meses, 37,4 kg, sexo feminino, natural de Colômbia, SP. Não apresentava sinais ou sintomas, exceto pela queixa à família, não valorizada, de "sensação de aperto no peito" que melhorava com respiração profunda. Em consulta médica de rotina, devido a quadro de amidalite, foi percebida alteração da ausculta cardíaca, sendo solicitado ecocardiograma e diagnosticada cardiopatia congênita com hiperfluxo pulmonar.

O exame físico de entrada em nosso Serviço era praticamente normal, estando em bom estado geral, eutrófica, afebril e acianótica. Chamava atenção apenas o ritmo cardíaco regular, sem sopros, com desdobramento fixo da segunda bulha, mais audível em foco pulmonar.


ELETROCARDIOGRAMA

Ritmo sinusal, freqüência 88 bat/min, SÂP 0º, SÂQRS +120°, PR 160 ms, QRS 80 ms. Sobrecarga de ventrículo direito (VD), com eixo do QRS para a direita em V1 e onda R entalhada com amplitude de 13 mm (Figura 1).


Fig. 1 - Eletrocardiograma chamando pouca atenção para comunicação interatrial



RADIOGRAMA

Situs solitus visceral em levocardia. Área cardíaca normal com índice cardiotorácico de 0,53. Trama vascular pulmonar sem alterações significativas, cúpulas diafragmáticas livres (Figura 2).


Fig. 2 - Radiografia de tórax sem alterações significativas que chamem à atenção para comunicação interatrial



ECOCARDIOGRAMA

Situs solitus em levocardia. Conexões venoatrial, atrioventricular e ventriculoarterial normal. Ao Doppler detectado fluxo no interior do átrio direito (AD), junto ao septo interatrial, compatível com comunicação interatrial (CIA) ostium secundum e fluxo sistólico turbulento em AD, indicando insuficiência tricúspide de grau discreto. A pressão sistólica do VD era de 40 mmHg. A relação entre o fluxo pulmonar (QP) e sistêmico (QS) estimada em 3,3:1, com a CIA medindo em sua maior extensão 20mm e tendo importante repercussão hemodinâmica.


DIAGNÓSTICO

É comum a presença em nossos consultórios de crianças que não apresentam sinais e sintomas de cardiopatia, geralmente praticam atividades físicas normalmente e seus pais sentem dificuldade em acreditar na preexistência da doença.

A pouca clínica freqüentemente é característica da CIA, sem sopros, com eletrocardiograma e radiografia de tórax aparentemente inocentes. A investigação deve ser adequada e a operação indicada de acordo com a repercussão hemodinâmica, ou seja, QP/QS 1,5:1 ou mais, preferencialmente na idade pré-escolar, com intuito de evitar diversos malefícios ao coração e pulmões [1,2].


OPERAÇÃO

Toracotomia transesternal mediana, abertura de pericárdio, observadas distensão das câmaras direitas e dilatação do tronco pulmonar (Figura 3). Instalação do circuito de circulação extracorpórea (CEC) de forma convencional, com utilização de cânulas em veias cavas e aorta.


Fig. 3 - Distensão das câmaras direitas após abertura do pericárdio



Em normotermia, pinçada a aorta, aberto o AD, realizada aspiração para descompressão das cavidades, cardioplegia sanguínea anterógrada e hipotérmica a 4ºC única.

Identificadas as bordas do defeito no septo interatrial (Figura 4), iniciada a sutura na borda inferior, próximo à veia cava inferior, sutura contínua de polipropileno 5-0, ocluindo o orifício do defeito com a placa de pericárdio bovino (Figura 5).


Fig. 4 - Átrio direito aberto demonstrando grande comunicação interatrial ostium secundum


Fig. 5 - Átrio direito aberto com a comunicação interatrial ostium secundum corrigida com placa de pericárdio bovi
no


Mantida na unidade de terapia intensiva por 48 horas como de rotina. Retirada de drenos e cateter central e encaminhada para enfermaria. Recebeu alta hospitalar no quarto dia de pós-operatório, com ecocardiograma de controle demonstrando a correção do defeito.


REFERÊNCIAS

1. Christensen DD, Vincent RN, Campbell RM. Presentation of atrial septal defect in the pediatric population. Pediatr Cardiol. 2005;26(6):812-4. [MedLine]

2. Muta H, Akagi T, Egami K, Furui J, Sugahara Y, Ishii M, et al. Incidence and clinical features of asymptomatic atrial septal defect in scool children diagnosed by heart disease screening. Circ J. 2003;67(2):112-5. [MedLine]

Article receive on domingo, 26 de outubro de 2008

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